Ciências Sociais Aplicada à Saúde

Ciências Sociais Aplicada à Saúde

Guia de Navegação

Direciona para o início do arquivo.

Direciona para página anterior.

Direciona para próxima página.

Direciona para o sumário.

Busca por páginas ou palavras.

Ferramentas

Aciona os recursos de acessibilidade.

Direciona para ajuda com a navegação.

Direciona para a avaliação do material didático.

Ícones

Identifica videos.

Identifica atividades.

Identifica textos que ampliam o conceito destacado.

Identifica a biografia do autor.

Identifica imagens.

Identifica aúdios.

Identifica um livro sugerido para leitura.

Identifica datas.

LINKS :Sempre que uma parte do texto aparecer na cor azul, há um link que leva você para página relacionada com o assunto.

Apresentação da disciplina

Caros estudantes do Curso de Farmácia,

Sejam bem-vindos à Disciplina de Ciências Sociais na área da Saúde. Sou Pollyanna Martins, professora da disciplina, e em parceria com as Faculdades INTA, a equipe da Pró-Diretoria de Inovação Pedagógica (PRODIPE) e, principalmente, com vocês construiremos conhecimentos sobre as principais temáticas das Ciências Sociais na Área da Saúde.

Neste momento, vocês devem estar pensando: “Por que graduandos do curso de Farmácia precisam estudar Ciências Sociais na área da Saúde?” As Ciências Sociais na área da Saúde são um campo do conhecimento que estuda as relações sociais, culturais, econômicas e políticas na sociedade moderna aplicada à área da saúde.

As Ciências Sociais na área da Saúde tem como objetivo compreender a construção social do processo saúde-doença. Nesta perspectiva, ao analisar a influência do contexto social, econômico, político e cultural no processo saúde-doença e na organização do setor saúde, espera-se contribuir para formação de profissionais de saúde críticos e reflexivos, com uma visão mais abrangente sobre o seu processo de trabalho e a multicausalidade do processo saúde-doença.

Questionamentos como: Em que contexto histórico surgiu as Ciências Sociais na área da Saúde? Quais as contribuições das correntes de pensamento clássicas das Ciências Sociais na área da Saúde? Qual a influência do contexto social, político, econômico e cultural no processo saúde-doença no setor da saúde? Serão discutidos no decorrer da disciplina e auxiliarão na nossa jornada de construção de conhecimentos acerca das Ciências Sociais na área da Saúde.

A disciplina está organizada em quatro competências: A primeira competência centra-se na compreensão dos fatos históricos de surgimento das Ciências Sociais na área da Saúde. Na segunda competência caracterizam-se as correntes de pensamento clássicas das Ciências Sociais na área da Saúde e sua aplicação na área da saúde. A terceira competência apresenta dimensão social do processo saúde-doença. E por último, a quarta competência aborda as relações entre Sociedade, Estado e Sistema Único de Saúde.

A disciplina tem carga horária de 30 horas/aula e as atividades avaliativas estão divididas: em atividades formativas e atividade somativa. As quatro atividades de avaliação formativa compõem 40% da nota final da disciplina e a atividade de avaliação somativa (prova presencial que contempla todo o conteúdo da disciplina) compreenderá 60% da nota final da disciplina. No Ambiente Virtual de Aprendizagem, vocês podem acessar o cronograma de atividades da disciplina para verificar os conteúdos e teor das atividades propostas.

Desejo a todos excelente viagem neste processo de ensino e aprendizagem sobre Ciências Sociais na área da Saúde.

Lista de videos de Ciências Sociais na Área da Saúde

Origem das Ciências Sociais na Saúde

1

Conhecimentos

  • Compreender o contexto histórico que ocasionou o surgimento das Ciências Sociais na área da Saúde, conceitos e características da sociedade, cultura e do processo de socialização.
  • Habilidades

  • Reconhecer a inter-relação entre saúde e os aspectos conceituais as características da sociedade, da cultura e do processo de socialização.
  • Atitudes

  • Fomento às leituras indicadas, para discussão sobre o contexto histórico que ocasionou o surgimento das ciências sociais na área da saúde.
  • Unidade 1

    Para você conhecer a trajetória das Ciências Sociais na área da Saúde sugerimos a leitura do artigo intitulado: “A trajetória das Ciências Sociais na área da Saúde na América Latina: revisão da produção científica”

    NUNES, Everardo Duarte. A trajetória das Ciências Sociais na área da Saúde em saúde na América Latina: revisão da produção científica. Rev. Saúde Publica, v. 40, n. Esp, 2006.

    Ao longo dos anos as ciências sociais tomaram como tema a saúde e assim como as demais ciências, sofreram influências políticas, sociais e institucionais. Observa-se que nos últimos anos foram acrescentadas novas temáticas de discussão como: racionalidades médicas, relação de gêneros, estudo das políticas da saúde, estudos histórico-sociais sobre as doenças, aspectos sociológicos nos estudos relacionados na avaliação em saúde.

    Guia de Estudo

    Após a leitura faça uma postagem das respostas no Fórum “Atividade Formativa 1”. Responda, fundamentado na leitura do artigo:

    1- Quais acontecimentos políticos, sociais, econômicos e culturais marcam o surgimento da sociologia?


    Aspectos conceituais e característica da sociedade, cultura e do processo de socialização

    Sociedade e Cultura - O conceito de sociedade

    O termo significa associação, união, gregário, ou, simplesmente, vida em grupo. O conceito de sociedade refere-se a um agrupamento autônomo de pessoas que habitam um território comum, uma cultura comum (conjunto compartilhado de valores, crenças, costumes e assim por diante) e estão ligadas umas às outras através das interações sociais rotineiras, status e funções interdependentes.

    Recursos básicos de uma sociedade

    Uma sociedade, em geral, é um agrupamento, relativamente grande de pessoas em termos de tamanho. Ela pode ser considerada o maior e o mais complexo grupo social estudado pelos sociólogos.

    É também definida como um espaço limitado ou território. As populações que compõem uma sociedade são, portanto, localizáveis em uma área geográfica. Outros recursos básicos correspondem às pessoas, estas apresentam um sentimento de identidade e pertencimento. Essa identidade emana do padrão das interações sociais que existem entre as pessoas e os diversos grupos que a compõem.

    Unidade 1

    Os membros de uma sociedade são considerados portadores de origem e experiência históricas comuns. Podem também falar uma língua-mãe ou ter uma língua dominante que serve, possivelmente, como uma herança nacional.

    No entanto, a coisa mais importante sobre a sociedade é que seus membros compartilham, simultaneamente, uma cultura comum e distinta. Isso é que diferencia os grupos populacionais.

    A sociedade é autônoma e independente no sentido de que ela tem todas as instituições sociais e arranjos organizacionais necessários para sustentar o sistema. No entanto, uma sociedade não é uma ilha no sentido de que sociedades são interdependentes, as pessoas interagem social, econômica e politicamente.

    É importante você notar que as características de uma sociedade não são exaustivas e não podem ser aplicadas a todas as sociedades. Por exemplo, o nível de desenvolvimento econômico e tecnológico de uma sociedade e seu tipo de economia ou sistema de subsistência podem criar algumas variações entre as sociedades no tocante às características básicas referidas.

    O conceito de Sociedade considerando diversos níveis

    De modo geral, e considerando um nível abstrato, todos os povos da terra podem ser tidos como sociedade. Eles partilham uma origem comum, habitam um mundo comum, têm uma unidade biopsicológica comum, exibem interesses, desejos e medos comuns e estão caminhando para um destino comum.

    Em outro nível, cada continente pode ser visto como uma sociedade. Assim, podemos falar da sociedade europeia, da sociedade africana, da sociedade asiática, da sociedade norte-americana e latina. Cada um desses continentes compartilha seu próprio território, experiências históricas, cultura e assim por diante.

    Cada estado-nação, ou país, é considerado uma sociedade, podendo haver grupos etnolinguisticamente distintos de pessoas que tenham um território e o consideram como seu.

    Você sabe como as sociedades são classificadas? Vejamos.

    Tipos e categorias de sociedades

    Os sociólogos classificam as sociedades em várias categorias dependendo de certos critérios. Um critério é o nível de desenvolvimento econômico e tecnológico alcançado pelos países. Assim, os países são classificados em: Primeiro Mundo, Segundo Mundo e Terceiro Mundo.

    Países do Primeiro Mundo são aqueles industrialmente avançados e economicamente ricos, podemos citar como exemplo os Estados Unidos da América, Japão, Grã-Bretanha, França, Itália, Alemanha, Canadá e assim por diante. Os países do Segundo Mundo são também industrialmente avançados, mas não tanto como a primeira categoria. São países detentores de economias emergentes. Atualmente são denominados de países em desenvolvimento como China, Rússia, Brasil, Argentina, México e Índia.

    Unidade 1

    As sociedades do Terceiro Mundo correspondem aos países que possuem economia subdesenvolvida, ou em desenvolvimento. Alguns autores como Küng & Schmidt (2001) e Castells (1999) acrescentam uma quarta categoria, ou seja, Quarto Mundo. Estes países são considerados os mais pobres.

    Quanto ao tipo de sociedade, podemos citar a mais antiga que é a caça, a sociedade pastoral e hortícola e sociedades agrícolas.

    A sociedade da caça depende da caçada para sua sobrevivência, já as sociedades pastorais são aquelas cuja subsistência baseia-se em pastoreio de animais, tais como gado bovino, camelos, ovinos e caprinos. Sociedades hortícolas são aquelas cuja economia baseia-se no cultivo de plantas com o uso de ferramentas simples, como a escavação com paus, enxadas e machados.

    A sociedade agrícola é dominante na maior parte do mundo; baseia-se na agricultura de grande escala que depende de arados usando o trabalho animal.

    A Revolução Industrial que começou na Grã-Bretanha durante o século XVIII deu origem ao aparecimento de um quarto tipo de sociedade chamada Sociedade Industrial. É aquela em que os bens eram produzidos por máquinas movidas a combustível em vez de animais e energia humana.

    Por fim, há outro tipo de sociedade denominada pós-industrial. Esta é baseada na informação, serviços e alta tecnologia, em vez de matérias-primas e fabricação.

    Conceito de cultura

    É importante notar que as pessoas comuns fazem, muitas vezes, mau uso do conceito de cultura. Veremos alguns equívocos sobre a cultura:

    • Muitas pessoas no mundo ocidental usam o termo cultura quando referem-se às pessoas que são mais "cultas" do que outras. Isso basicamente emana da ideia associada à raiz da palavra cultura: Kultura, em alemão refere-se à "cultura". Assim, quando se diz que alguém é "culto" significa dizer que é civilizado. Para sociólogos e antropólogos, a cultura inclui muito mais do que requinte, bom gosto, sofisticação, educação e valorização das artes plásticas.
    • Muitas pessoas passaram a pensar a cultura em termos de costumes, música, dança, roupas, joias e penteados.
    • Muitas pessoas pensam na cultura associada às coisas materiais do passado. De acordo com este ponto de vista, o cultural não pode incluir coisas (materiais ou não) que sejam modernas, comuns do dia a dia. Aqui, o comum é considerado não cultural ou "menos cultural”.

    Unidade 1

    O conceito de cultura é um dos mais utilizados na sociologia. Refere-se a todos os modos de vida dos membros de uma sociedade. Ele inclui o vestir, seus costumes, vida familiar, arte e padrões de trabalho, cerimônias religiosas, atividades de lazer e assim por diante. Este conceito também inclui os bens materiais que produzem: arcos e flechas, arados, fábricas e máquinas, computadores, livros, edifícios, aviões, etc.

    O conceito de cultura foi definido centenas de vezes por sociólogos e antropólogos, enfatizando diferentes dimensões. No entanto, na maioria das vezes os estudiosos focaram a dimensão simbólica da cultura. Ela está sempre se desenvolvendo, pois é influenciada pela maneira de pensar o desenvolvimento do ser humano no decorrer dos anos.

    Características básicas da cultura

    As características da cultura são denominadas em várias culturas. Vamos enumerar cada uma delas:

    Cultura orgânica e supraorgânica: é orgânica quando consideramos o fato de que não existe uma cultura sem uma sociedade humana. É supra orgânica porque vai muito além de qualquer vida individual (os indivíduos vêm e vão); a cultura permanece e persiste.

    Cultura aberta e encoberta: é geralmente dividida em material e não material. A cultura material consiste de quaisquer objetos tangíveis feitos pelos humanos tais como ferramentas, automóveis, edifícios, etc. A não-material corresponde a todos os aspectos não físicos como a linguagem, crenças, ideias, conhecimentos, atitudes, valores, etc.

    Cultura explícita e implícita: é explícita quando considera as ações que podem ser explicadas e descritas facilmente por aqueles que as executam. É implícita quando consideramos as coisas que fazemos sem sermos capazes de explicá-las, porém acreditamos que elas sejam assim.

    Cultura ideal e manifesta (real): cultura ideal envolve a maneira como as pessoas devem comportar-se ou o que elas devem fazer. A cultura manifesta envolve o que as pessoas realmente fazem.

    Cultura estável: é estável quando consideramos o que as pessoas têm de valor e estão entregando para a próxima geração a fim de manter suas normas e valores. No entanto, quando uma cultura entra em contato com outras, ela pode mudar, não somente através de contato direto ou indireto, mas também através da inovação e adaptação às novas circunstâncias.

    Unidade 1

    Cultura compartilhada e aprendida: é propriedade de um grupo social de pessoas (compartilhado). Os indivíduos obtêm conhecimento cultural do grupo através da socialização. No entanto, devemos notar que as coisas compartilhadas entre as pessoas podem não ser culturais, uma vez que existem muitos atributos biológicos que as pessoas compartilham entre si.

    Elementos da cultura

    A cultura inclui dentro de si elementos que compõem a essência de uma sociedade ou um grupo social. Os mais importantes incluem: símbolos, valores, normas e linguagem.

  • Símbolos: são os componentes centrais da cultura; referem-se a qualquer coisa para as quais as pessoas atribuem significado e usam para comunicar-se com os outros. Mais especificamente, os símbolos são palavras, objetos, gestos, sons ou imagens que representam algo maior do que eles.
  • Linguagem: definida como um sistema de símbolos verbais e, em muitos casos, escritos que podem ser organizados juntos para transmitir significados complexos; é a capacidade distintiva dos seres humanos e um elemento-chave da cultura. Cultura engloba linguagem e através da linguagem a cultura é comunicada e transmitida. Sem linguagem seria impossível desenvolver, elaborar e transmitir cultura para as gerações futuras.
  • Valores: Os valores são elementos essenciais da cultura não-material. Eles podem ser definidos como diretrizes abstratas para nossas vidas, decisões, objetivos, escolhas e ações. Eles compartilham as ideias de um grupo ou de uma sociedade sobre o que é certo ou errado, correto ou incorreto, desejável ou indesejável, aceitável ou inaceitável, ético ou antiético, etc. Os valores são, em geral, roteiros para nossas vidas. Os valores são compartilhados e aprendidos em grupo. Eles podem ser positivos ou negativos.
  • Os valores são dinâmicos, ou seja, eles mudam ao longo do tempo. Eles também são estáticos, o que significa que tendem a persistir sem qualquer modificação significativa. São também diversificados, o que significa que variam de lugar para lugar e de cultura para cultura. Alguns valores são universais porque há unidade biopsicológica entre as pessoas em todos os lugares e em todos os tempos.
  • Normas: são elementos essenciais da cultura. Elas são princípios implícitos para a vida social, relacionamento e interação. As normas são regras detalhadas e específicas para situações determinadas. Elas nos dizem como fazer algo, o que fazer, o que não fazer, quando fazer, por que fazer, etc. Normas são derivadas de valores. Isso significa que, para cada norma específica, existe um valor geral que determina seu conteúdo.
  • Unidade 1

    As normas fortes são consideradas as leis formais de uma sociedade ou grupo. Leis formais são escritas e codificam as normas sociais.

    As pessoas não podem agir de acordo com os valores definidos e as normas do grupo. As normas sociais podem ser divididas em: costumes e comportamentos. Costumes são regras importantes que em geral ocorrem automaticamente sem qualquer base de suporte nacional e inspiram-se nos hábitos passados de geração em geração. Eles não são impostos por lei, mas por controle social informal e sua violação não é gravemente sancionada.

    Já o comportamento é regido por convenções, isto é, regras estabelecidas e geralmente aceitas pela sociedade. Alguns comportamentos excepcionais são considerados excêntricos.

    Variabilidade Cultural

    Como você já viu, variabilidade cultural refere-se à diversidade de culturas nas sociedades e lugares. Como existem diferentes sociedades, existem diferentes culturas. A diversidade de cultura humana é notável. Valores e normas de comportamento variam muito de cultura para cultura, muitas vezes contrastando de forma radical. Por exemplo, os judeus não comem carne de porco, enquanto os hindus sim, mas evitam carne de gado. Se considerarmos sociedades como a Etiópia e a Índia, notamos que há entre elas grandes diversidades culturais. Por outro lado, dentro de ambas as sociedades, há também uma notável variabilidade cultural.

    Nós usamos o conceito de subcultura para chamar a variabilidade da cultura dentro de determinada sociedade. Subcultura é uma cultura distinta partilhada por um grupo dentro de uma sociedade.

    Etnocentrismo, relativismo cultural e choque cultural

    Nós, muitas vezes, tendemos a julgar outras culturas comparando-as com a nossa. Não é logicamente apropriado subestimar, ou julgar, outras culturas na base de um padrão de cultura. O Etnocentrismo, em geral, é a atitude de tomar a sua própria cultura e modos de vida como os melhores. É a tendência para aplicar os próprios valores culturais a fim de julgar o comportamento e as crenças de pessoas de outras culturas. As pessoas consideram um comportamento diferente como estranho ou selvagem.

    No Relativismo Cultural cada sociedade tem sua própria cultura, que é mais ou menos única. Cada cultura possui seu padrão único de comportamento que pode parecer estranho para as pessoas de outras origens culturais. Nós não podemos compreender suas práticas e crenças separadamente da cultura mais ampla da qual faz parte. A cultura tem que ser estudada em termos de seus próprios significados e valores.

    O relativismo cultural descreve uma situação onde existe uma atitude de respeito às diferenças culturais em vez de condenar a cultura de outras pessoas como não civilizada ou atrasada. O respeito pelas diferenças culturais envolve:

    Unidade 1

    • Valorizar a diversidade cultural;
    • Aceitar e respeitar outras culturas;
    • Tentar entender cada cultura e seus elementos em termos do seu próprio contexto e lógica;
    • Aceitar que cada costume tem uma dignidade e significado inerente às formas de vida de um grupo que trabalha num determinado meio ambiente para satisfazer as necessidades biológicas dos seus membros e as relações grupais;
    • Saber que a cultura própria de uma pessoa é apenas uma entre muitas;
    • Reconhecer o que é imoral, ético e aceitável numa cultura.

    Relativismo cultural pode ser considerado o oposto do etnocentrismo. Contudo, há algum problema com o argumento de que o comportamento de determinada cultura não deve ser julgado pelos padrões do outro. Isso ocorre porque considerando uma situação extrema, é possível afirmar, por exemplo, que não existe um limite superior no que se refere à moralidade em termos da internacional ou universal.

    O choque cultural (Culture Shock) é o psicológico e social desajuste no nível micro ou macro que é experimentado pela primeira vez quando as pessoas encontram novos elementos culturais, como coisas novas, ideias, conceitos, crenças e práticas aparentemente estranhas.

    Nenhuma pessoa está protegida de um choque cultural. No entanto, indivíduos variam em sua capacidade de adaptar-se e superar a influência do choque cultural. Pessoas altamente etnocêntricas estão mais suscetíveis ao choque cultural. Por outro lado, os relativistas culturais podem achar que é fácil adaptar-se a novas situações e superar o choque cultural.

    Socialização

    A socialização é um processo através do qual as pessoas aprendem e são treinadas nas normas básicas, valores, crenças, habilidades, atitudes, modos de fazer e agir de acordo com um grupo social ou sociedade específica. O indivíduo passa por várias fases de socialização, desde o nascimento até a morte. Assim, precisamos de socialização enquanto crianças, adolescentes, adultos e idosos.

    Do ponto de vista das pessoas individuais, especialmente um bebê recém-nascido, a socialização é um processo pelo qual um ser biológico ou organismo é transformado em um bem-estar social.

    Em termos de grupo, sociedade ou qualquer organização profissional, a socialização é um processo pelo qual as organizações, grupos sociais, a estrutura da sociedade e o bem-estar são mantidos e sustentados. É o processo em que a cultura, as habilidades, as normas, as tradições, os costumes, etc., são transmitidos de geração em geração – ou de uma sociedade para outra.

    Unidade 1

    Socialização pode ser formal ou informal: torna-se formal quando é conduzida por grupos e instituições sociais formalmente organizados, como escolas, centros religiosos, universidades, meios de comunicação, locais de trabalho, etc. É informal quando é realizada através de interações interpessoais ou interações informais em pequenos grupos sociais.

    A socialização mais importante para nós é a que temos através de agentes informais como a família, pais, vizinhança e influências do grupo de pares. Ela tem uma influência muito poderosa, negativa ou positiva, em nossas vidas.

    O processo de socialização, seja ele formal ou informal, é de vital importância para os indivíduos e sociedade. Sem algum tipo de socialização, a sociedade deixaria de existir. A socialização, portanto, pode ser rotulada como a maneira pela qual a cultura é transmitida e os indivíduos são instalados de acordo com os modos de vida da sociedade.

    As metas de socialização

    Em termos de pessoas individuais, o objetivo da socialização é equipar o indivíduo com os valores básicos, as normas, as competências, etc., de modo que elas se comportem e atuem corretamente no grupo social ao qual pertencem. Socialização tem também os seguintes objetivos específicos:

    • incutir aspirações;
    • ensinar papéis sociais;
    • ensinar habilidades;
    • ensinar conformidade com as normas e construir as identidades pessoais.

    Apesar da importância da inculcação de valores e normas no processo de integração social, precisamos observar também que os valores sociais não são igualmente absorvidos por todos os membros de uma sociedade ou grupo. A integradora função de socialização também não é igualmente benéfica para todas as pessoas.

    Padrões de socialização

    Existem dois padrões amplamente classificados de socialização. São eles: a socialização repressiva e socialização participativa. Socialização repressiva é orientada para ganhar a obediência, enquanto a socialização participativa é orientada para ganhar a participação da criança.

    Principais tipos de socialização

    Existem diferentes tipos de socialização: tradicionais (primária ou socialização na infância, secundária ou socialização na idade adulta, dessocialização e ressocialização); socialização antecipatória e socialização reversa.

    Socialização primária ou socialização na infância

    É também chamada de socialização básica ou precoce. Os termos "primário", "base" ou "cedo" significam a importância do período da infância para a socialização. Muito da personalidade dos indivíduos é forjada neste período da vida. Socialização nesta fase da vida é um marco, sem ela, estaríamos longe de nos tornarmos seres sociais. Por isso, as crianças devem ser devidamente socializadas desde o nascimento até cinco anos de idade, haja vista este período ser básico e crucial.

    Unidade 1

    Uma criança que não seja apropriadamente socializada nesta fase provavelmente será deficiente no âmbito do desenvolvimento social, moral, intelectual e de personalidade.

    A socialização secundária ou socialização na idade adulta

    A socialização secundária, ou socialização na idade adulta, é necessária quando o indivíduo assume novos papéis, reorientando-se de acordo com sua mudança, status e papéis sociais, como quando inicia a vida matrimonial. O processo de socialização nesta fase pode, às vezes, ser intenso. Por exemplo, os licenciados que entram no mundo do trabalho para começar seu primeiro posto de trabalho têm novos papéis a serem executados.

    A socialização de adultos pode também ocorrer entre imigrantes. Quando eles vão para outros países, precisam aprender a língua, valores, normas e uma série de outros costumes.

    Ressocialização e Dessocialização

    Na vida dos indivíduos que passam por diferentes estágios e experiências não existe a necessidade de ressocialização e dessocialização. Ressocialização significa a adoção, por parte dos adultos, de estilos de vida radicalmente diferentes e que são mais ou menos diferentes com as normas e os valores anteriores. São alterações rápidas e básicas na vida adulta. A mudança pode exigir o abandono de um estilo de vida por outro, completamente diferente e incompatível com o primeiro.

    A dessocialização acontece frequentemente quando nas sociedades modernas, e na vida adulta, exige-se dos indivíduos transições nítidas e mudanças. Ela normalmente precede a ressocialização. Refere-se a indivíduos que mudaram seus estilos de vida, crenças, valores e atitudes e passaram a ocupar novos estilos, parcial ou totalmente, a fim de tornar-se parte do novo grupo social.

    Dessocialização e Ressocialização ocorrem frequentemente no que é chamado de instituições totais, o que inclui, por exemplo: hospitais psiquiátricos, prisões e unidades militares. Em cada caso, as pessoas que se juntam à nova definição têm primeiro de ser dessocializadas antes de serem ressocializadas.

    Ressocialização também pode significar socialização dos indivíduos novamente em seus valores e normas anteriores, depois de reunir seus antigos modos de vida, gastando relativamente longo período de tempo em instituições. Isso ocorre porque eles podem ter esquecido a maior parte dos valores básicos e habilidades do ex-grupo ou sociedade.

    Esse tipo de ressocialização também pode ser considerado como a reintegração, ajudar os ex-membros da comunidade a renovar seus antigos modos de vida, habilidades, conhecimentos, etc.

    Socialização antecipatória

    Socialização antecipatória refere-se ao processo de ajuste e adaptação em que os indivíduos tentam aprender e internalizar os papéis, valores, atitudes e habilidades de um status social ou profissão para a qual são prováveis recrutas no futuro. Eles fazem isso antecipando a socialização próxima na vida real.

    Socialização reversa

    Está associada ao fato da socialização ser um processo de mão dupla. Ela envolve as influências e pressões das socializações que direta, ou indiretamente, induzem a mudar atitudes e comportamentos dos próprios socializadores.

    Na socialização reversa, as crianças, por exemplo, podem socializar seus pais em alguns papéis, habilidades e atitudes que faltam a estes.

    Unidade 1

    Agentes e componentes de socialização

    Agentes de socialização são os diferentes grupos de pessoas e arranjos institucionais responsáveis pelo treinamento de novos membros da sociedade. Alguns deles poderão ser formais, enquanto outros são informais. Eles ajudam os membros a entrar nas atividades gerais da sua sociedade. Algumas das agências de socialização são: a família, relacionamentos com seus pares, escolas, bairros (da comunidade), a massa da mídia, etc.

    A instituição família é geralmente considerada o mais importante agente de socialização. No processo de socialização, os contatos mais importantes ocorrem entre uma criança, seus pais e irmãos. Os contatos também poderiam ser entre a criança e os pais substitutos quando os pais reais não estão disponíveis.

    Além dos pais, há outros agentes de socialização (em sociedades modernas), como creches-centros, creches e infância, escolas e universidades. Parece que esses vários agentes de socialização assumiram parcialmente a função dos pais, particularmente nas sociedades modernas onde as mulheres estão cada vez mais deixando a sua tradicional responsabilidade domiciliar para exercer uma atividade fora de casa.

    Além de pais e escolas, grupos de pares são muito importantes no processo de socialização. Às vezes, a influência do grupo de pares pode ser negativa ou positiva, e ser tão poderosa como a dos pais. Os grupos de pares (grupo de amigos) podem transmitir valores sociais vigentes ou desenvolver novas e distintas culturas próprias, com valores peculiares.

    Os meios de comunicação de massa como televisão, rádio, cinema, vídeos, fitas, livros, revistas e jornais são também importantes agentes de socialização.

    Múltiplas e contraditórias influências de socialização

    Até agora, o quadro de socialização apresentado pode parecer inclinado para uma visão funcionalista e estrutural da sociedade e de socialização. Assim, seria útil adicionar algumas ideias que podem ajudar a equilibrar a imagem. Numa conceituação crítica de socialização, influências contraditórias e ambíguas de socialização precisam ser destacadas.

    Se tomarmos o exemplo do consumo de álcool e tabaco veremos que há processos subjacentes e contraditórios de socialização por trás desse fenômeno. Influências conflitantes surgem quando, por um lado, as famílias, escolas e instituições médicas advertem os jovens para não consumirem estes produtos e, por outro lado, as empresas que produzem esses produtos estão travando uma guerra para vendê-los aos jovens através da atração da propaganda.

    Este exemplo nos mostra que, muitas vezes, mensagens conflitantes competem a partir das várias fontes de socialização. As empresas internacionais promovem a cultura do consumismo com o auxílio dos meios de comunicação global. Estes tendem a desempenhar papéis dominantes na influência das atitudes e estilos de vida dos jovens.

    Correntes de Pensamento Clássicos das Ciências Sociais e sua Aplicação na Saúde

    2

    Conhecimentos

  • Compreender a influência e as contribuições das correntes de pensamento clássicas das Ciências Sociais na área da Saúde e suas aplicações na saúde.
  • Habilidades

  • Reconhecer a influência e as contribuições das correntes de pensamento clássicas das Ciências Sociais e suas aplicações na área da saúde.
  • Atitudes

  • Desenvolver as análises evolucionistas propostas por as correntes sociológicas clássicas e suas consequências na área da saúde e perceber as diferentes posturas teóricas face à mesma realidade social.
  • Unidade 2

    O Funcionalismo

    Em uma época na qual a Igreja detinha poder absoluto sobre tudo que a sociedade acreditava, uma teoria revolucionou os tempos. Charles Darwin, com sua teoria da evolução das espécies, inverteu as crenças da época. Tal teoria contradizia todos os ensinamentos da Igreja que naquele período começava a ser questionada; a ideia de que Deus era o criador de todas as coisas foi abalada. Sem tantos fieis, a Igreja começou a perder força e prestígio, o que mudou de forma impactante a crença na fé católica até os dias atuais.

    A sociologia foi influenciada diretamente pela ideia do evolucionismo e Durkheim, sendo um entusiasta da época, baseou-se nessas teorias. Ele estava convicto de que apesar de toda a agitação e as transformações constantes, aquele momento da modernidade significava um progresso na história da humanidade. E ele não estava errado.

    Durkheim impulsionou fatos polêmicos da sociedade francesa como a criação do divórcio e o impedimento do ensino religioso nas escolas. O que hoje pode parecer banalidade revolucionou a época e causou grandes transtornos para a sociedade.

    Este sociólogo entende a sociedade como um corpo social em que as células são as pessoas, as instituições são os órgãos e o corpo é a sociedade. E para que se mantenha saudável, deve haver um equilíbrio entre estes setores; caso uma das células se recuse a executar sua tarefa, ocasionará o desequilíbrio de todo o corpo, e este sofrerá as consequências.

    Afirma-se ainda que a base de uma sociedade coesa é a solidariedade. Refletindo sobre as ideias de Durkheim nos dias atuais, não é difícil entender porque enfrentamos um caos diário. Os seres humanos não se respeitam, são egoístas, não se preocupam com o bem estar do próximo. No entanto, ações simples como as sugeridas por Durkheim poderiam restabelecer a saúde nessa sociedade doentia.

    O funcionalismo começou a ser valorizado na questão social. Devido às ideias iluministas e positivistas, a saúde pública, preocupada com a saúde da sociedade, implantou os primeiros agentes públicos integrando hospitais e profissionais da saúde.

    Histórico de Émile Durkheim

    Nascido no ano de 1858, em Épinal, na França, David Èmile Durkheim veio ao mundo em uma época bastante conturbada. As consequências da Revolução Francesa ainda estavam ecoando fortemente por toda a França que passava por uma enorme instabilidade política. Todo esse caos gerado pelas ideias iluministas e pela dupla revolução posta em andamento por toda a Europa induziu grande parte dos pensadores da época a refletir sobre os fenômenos sociais.

    Unidade 2

    É com a Revolução Francesa que se adota o modelo de medicina urbana, trazendo saneamento básico e deixando ruas mais espaçadas para haver melhor ventilação. Ainda na França pós-revolução, com Dr. Joseph-Ignace Guillotin (o criador da guilhotina como forma indolor, higiênica e eficaz de pena de morte), houve uma atenção especial do fornecimento de água potável na detecção de focos de epidemia e de locais que trariam perigo à saúde pública como matadouros e fábricas de produtos químicos, curtumes, entre outros.

    Podemos afirmar que Émile Durkheim era um entusiasta dos novos tempos. Estava convencido de que, apesar de toda a confusão, aquele período de mudança significava um avanço na história da humanidade. Nesta “segunda revolução industrial” inaugurava-se a era do aço e da eletricidade, da criação do motor de combustão interna, do submarino, do cinema e do avião. Na área da saúde, tivemos as vacinas antirrábica de Louis Pasteur, as vitaminas, o bacilo de Koch, entre outros avanços.

    Porém, mesmo com tantos avanços, a sociedade europeia em que viveu Émile Durkheim atravessava muita instabilidade. A sociologia que ele desenvolveu queria explicar estas tensões desencadeadas pela nova era chamada modernidade.

    Charles Darwin e a teoria da evolução das espécies

    Charles Darwin

    Para você entender a sociologia de Émile Durkheim precisa voltar no tempo e ir para o ano de 1859, quando o naturalista britânico Charles Darwin lançou a primeira edição da obra A origem das espécies. Neste livro Darwin explica como um processo que afeta todos os organismos faz com que eles busquem se adaptar na tentativa de perpetuar sua espécie no mundo. No entendimento deste naturalista, existe uma lei que age sobretudo naquilo que é vivo: a lei da evolução, princípio que rege a natureza.

    Teoria da Evolução- Charles Darwin

    Essa teoria de Darwin foi revolucionária porque contradizia todos os ensinamentos religiosos da época. O princípio de que toda a vida na Terra foi criada por Deus (criacionismo) e era regida de acordo com os propósitos deste ser superior foi abalado por esta lei que explicava racionalmente a diversidade biológica do mundo através da evolução.

    Assim como a lei da gravidade, a evolução é algo do qual os seres vivos não podem escapar. A diversidade biológica é explicada pela tentativa de adaptação dos organismos vivos às mais diferentes condições de ecossistemas no mundo. Aqueles seres que melhor se adaptam, perpetuam a sua espécie, aqueles que não, extinguem-se. Analisando vários fósseis, Charles Darwin teve a prova concreta das espécies que sobreviveram e das que não se adaptaram ao processo evolutivo.

    Auguste Comte e o Positivismo

    Auguste Comte

    O francês Auguste Comte, antecessor de Émile Durkheim, apropriou-se das ideias evolucionistas de Darwin e criou uma ciência da sociedade cujo objetivo era explicar como funcionavam os mecanismos sociais. Inicialmente, ele deu nome a esta ciência de “física social” e buscou aplicar rigorosos métodos científicos ao estudo dos fenômenos sociais, ou seja, a produção de conhecimento com base em evidências empíricas obtidas com experimentação, comparação e observação.

    Unidade 2

    Para Comte, o conhecimento religioso seria incapaz de desvendar as engrenagens sociais porque operava através de dogmas, ou seja, verdades incontestáveis. Já o conhecimento científico e seus métodos seria o único que poderia dar aos cientistas as informações necessárias para entender a complexidade da vida em sociedade.

    De acordo com Simon (2010), o francês Auguste Comte fundou assim a filosofia positivista, ou positivismo, na qual ele aponta a ciência como um tipo de conhecimento mais avançado, fruto das forças evolutivas que Darwin havia citado em sua obra. Para Comte, a sociedade europeia do século XIX havia atingido um estágio mais avançado na escala evolutiva da humanidade por ter desenvolvido o pensamento científico e ter se libertado do dogmatismo religioso. O Iluminismo e as Revoluções Industrial e Francesa trouxeram um nível de civilização à Europa nunca antes alcançado.

    Na concepção positivista, a evolução que atinge todos os organismos vivos também exerce sua força sobre as sociedades que funcionam como corpos sociais. Comte entende que a humanidade atravessou - e ainda atravessa - um caminho evolutivo unilinear por onde existem três estágios bastante definidos. O primeiro, e mais atrasado, é o teológico. Em busca de responder as perguntas existenciais básicas, os seres humanos mais atrasados se apegam a seres sobrenaturais (deuses, ou a imagem de um Deus).

    O segundo estágio, que é o metafísico, é um estágio de meio-termo no qual os homens passaram a ver os fenômenos sociais não mais como obra do sobrenatural, do fantástico, mas em termos naturais. Neste momento ainda se procura responder as questões primordiais através do absoluto.

    No terceiro estágio, ou positivo, as explicações científicas decodificam o mundo e fornecem respostas por meio dos estudos das leis naturais. Somente através da ciência seria possível a humanidade descobrir os mecanismos que conduzem a sociedade e, finalmente, resolver as desarmonias e o caos que levam os homens a entrar em conflitos. O controle sobre os fenômenos sociais daria estabilidade e reinaria a paz e a ordem necessárias para que os povos da terra entrassem em um estágio de progresso (evolução) infinito.

    Segundo esta ótica, as explicações teológicas e os povos que adotavam essas ideias eram considerados atrasados; as sociedades mais avançadas eram as que tinham conhecimento da ciência. Seguindo o padrão de evolução unilinear, os grupos sociais atrasados, ou primitivos, precisavam se desenvolver e atingir o estágio positivo, ou seu destino seria o mesmo dos seres que não conseguem se adaptar às leis evolutivas: a extinção.

    Unidade 2

    Rezadeira

    O Positivismo é uma filosofia que contribui significativamente para que conhecimentos não científicos tornem-se menosprezados por serem vistos como atrasados nesta ótica evolutiva. Dentro da área da saúde, podemos citar o exemplo da difamação de práticas das “rezadeiras” aqui na região Nordeste. Trata-se de uma sabedoria tradicional que mistura cultura indígena e tradição popular e não é legitimada pelo modelo biomédico.

    Posteriormente, Émile Durkheim vai se apropriar das ideias positivistas e desenvolver o trabalho de Auguste Comte. Os temas abordados pelos escritos de Durkheim mostravam uma enorme preocupação com a desordem moral de seu tempo. É preciso recorrer à história para entender que o autor participou de fatos polêmicos da França do século XIX como a instituição do divórcio e da proibição do ensino religioso nas escolas.

    Apropriando-se do modelo das ciências biológicas, Durkheim observa a sociedade como um corpo social em que as células são os indivíduos, as instituições são os órgãos e o corpo é a sociedade por completo. Ainda perseguindo a lógica durkheimiana, é necessário haver equilíbrio entre as partes do corpo para que este mesmo fique saudável. Cada célula deve cumprir a sua respectiva função dentro do todo, se alguma célula (indivíduo) desobedece, ou se recusa a executar a tarefa que está destinado a fazer, o corpo sofrerá as consequências, logo, o indivíduo tem o dever de cumprir a sua função para manter a harmonia e a saúde deste organismo social.

    Na visão de Durkheim, o que mantém a sociedade coesa é a solidariedade, sentimento que possibilita a você fazer parte de algo maior e dar significado à sua existência. É preciso manter a união social e a solidariedade para impedir que a sociedade se transforme no caos, no conceito próprio do autor, em um estado de anomia. Este modelo biológico da vida em sociedade acabou criando o funcionalismo, essa explicação do mundo social na qual a interação entre as pessoas e as instituições funciona como um sistema vivo, dinâmico e integrado.

    O funcionalismo definia doença como um estado de alteração no funcionamento normal do indivíduo, levando em conta sua estrutura pessoal e social.

    Na segunda metade do século XIX, sob o impulso do positivismo, surgiram as penitenciárias e os sanatórios como espaços que têm a função de retirar os indivíduos nocivos à sociedade e reabilitá-los ao contato social. Dentro dessa lógica, aqueles que cometem crimes contra a moral da sociedade são pessoas que prejudicam a coesão social, deixando o corpo social doente. Sendo assim, eles seriam retirados do convívio para que fossem curados e reinseridos no meio social após sua cura.

    No caso dos presos, uma rotina de trabalhos forçados, com muita ordem e disciplina, curaria o detento da doença moral da qual ele estaria acometido. No caso dos loucos, remédios que o mantivessem calmos, práticas médicas como a lobotomia, eletrochoques, banhos frios e camisa de força eram comuns nos sanatórios, no final do século XIX. Estes tratamentos tinham como intuito devolver a razão para aqueles que a perderam.

    Unidade 2

    No entanto, a essência da filosofia funcionalista entende que se o indivíduo não cumpre a sua função social específica, ele se transforma numa célula cancerígena que precisa ser retirada da sociedade para não contaminar o restante das células e nem adoecer os órgãos.

    Émile Durkheim estava convencido de que a filosofia funcionalista precisaria ser reconhecida como ciência e tratou de encontrar um objeto de estudo. Através de suas reflexões, entendeu que os fatos sociais seriam o objeto de estudo da sociologia. Como fatos sociais ele define: é “toda maneira de agir, fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, que é geral na extensão de toda a sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter”.

    Em sua obra o suicídio, o autor aplica o seu método e escolhe o suicídio como um fato social, visto que este fenômeno apresenta as características de um fato social, ou seja, é um modo de agir, pensar ou sentir que são externos ao indivíduo, exercem um poder de coerção e têm sua própria realidade.

    No senso comum, o ato suicida é uma ação extremamente individual. Neste livro, Durkheim prova que, diferente do que se pensava, a sociedade está envolvida no processo porque o suicida quer, conscientemente, produzir a sua própria morte, visando atingir o meio social com sua ação.

    Émile Durkheim divide o suicídio em três formas: suicídio egoísta - o indivíduo não vê mais sentido na vida porque seus laços sociais se afrouxam; o suicídio altruísta - o grupo social exerce uma pressão enorme sobre o ser e ele se sente na obrigação de cometer este ato de aniquilamento para preservar a coletividade (exemplo dos homens-bomba no Oriente Médio e dos Kamikazes no Japão da Segunda Guerra Mundial). Por último, o suicídio anômico, que ocorre nas circunstâncias em que a sociedade está completamente caótica e existe uma completa ausência de regras. Um desses exemplos ocorreu com a quebra da Bolsa de Valores nos Estados Unidos em 1929 e está acontecendo na atualidade com a crise econômica de 2008 que atingiu a Europa; os níveis de suicídio cresceram de forma exponencial.

    O materialismo histórico

    A Revolução Industrial mudou de forma impactante a sociedade da época. Dentre todas essas mudanças, ela trouxe consigo o capitalismo. Há ainda uma série de divergências sobre os benefícios do capitalismo para a sociedade moderna, no entanto, o que se tem enquanto consenso é que este exerce grande influência sobre a forma como se vive desde a Revolução Industrial até os dias atuais.

    Unidade 2

    Nesse contexto, Marx defende que através da racionalidade o homem pode entender sua participação na natureza e sua importância para o mundo. Ele afirma também que compreender as leis que regem e conduzem o universo é a melhor maneira de construir uma sociedade melhor, mais justa e igualitária. Enquanto o homem não toma consciência desses fatores, ele continua um ser alienado.

    A respeito do capitalismo, Marx temia o controle que este pode exercer sobre o ser humano, influenciando suas ações, podendo levá-las ao extremo. O desejo pela aquisição de bens materiais é constante e pode levar o homem ao total distanciamento dos seus valores e princípios. O homem moderno, segundo Marx, se relaciona com aquilo que ele mesmo produz, como se não houvesse nenhuma ligação com a realidade.

    O pensamento de Marx é que o homem busca sobreviver através do esforço de seu trabalho e neste processo exerce uma interação com outros estabelecendo assim relações sociais.

    Quanto à sociologia voltada para a área da saúde, poderemos fazer uma reflexão acerca das diferentes formas de acesso que os indivíduos têm aos hospitais. Dependendo da sua classe social, o indivíduo terá atendimento nos hospitais públicos ou privados.

    Histórico de Karl Marx

    Karl Marx

    O alemão Karl Heinrich Marx nasceu em Trier, na Alemanha, no ano de 1818. Marx observou como a modernidade transformou o seu país de origem, porém, diferentemente de Émile Durkheim, ele não teve uma perspectiva tão otimista das consequências deste novo tempo. Os escritos de Marx têm como foco o impacto do sistema econômico que desponta com a Era Moderna, o capitalismo. Em 1835 ele foi estudar Direito em Bonn, mas logo em 1836 transferiu-se para Berlim e mudou sua área para a filosofia. Neste período, ele se interessou pelo pensamento de outro alemão, Friedrich Hegel, que teve influência direta em todos os seus escritos.

    Unidade 2

    Dialética marxista e materialismo histórico

    Karl Marx se apropriou de um método de análise chamado dialética. Criado na Grécia antiga e posteriormente desenvolvida por Hegel, a dialética postula que a natureza está em movimento permanente e este funcionamento pode ser observado nas etapas da vida (nascer, mudar qualitativamente ou quantitativamente, morrer).

    No entanto, este movimento do mundo chama-se devir e acontece porque, na essência, a natureza produz o seu oposto e toda mudança é a passagem contínua de coisas antagônicas (seco-úmido, novo-velho, pequeno-grande, cheio-vazio, etc). A essência do mundo é o movimento. O movimento do mundo é produzido pelo choque entre o oposto das coisas, ou seja, o movimento é produzido pelo conflito.

    Segundo Marx, através da racionalidade e autoconsciência, o homem pode entender que faz parte da natureza e é integrante deste movimento do mundo. Compreender as leis que conduzem o movimento é o melhor caminho para construir uma sociedade mais justa e igualitária. Enquanto o homem não se torna consciente desta sua integração com a natureza e do movimento que ela produz, continua alienado.

    Você sabe o que significa alienação?

    Aqui defenderemos o conceito de alienação sob o ponto de vista de Karl Marx. Para este, alienação é o processo que coloca o trabalho como algo exterior ao trabalhador. De acordo com Bezerra, Fonseca e Nogueira (2013), a palavra alienação não tem o mesmo sentido que costumamos usar no dia a dia. Geralmente, se uma pessoa é “bitolada” em algo, é comum que seja classificada como alienada. Um exemplo de alienação que podemos citar é a alienação religiosa: aquelas pessoas que justificam sua situação precária como sendo fruto da vontade de Deus. Devido suas crenças, elas não conseguem imaginar que seu problema possa ser por outras causas.

    O que preocupava Karl Marx acerca do capitalismo era a perda do controle dos homens pela sua própria criação, ou seja, eles estavam subjugados pela riqueza da vida material. O homem moderno se relaciona com aquilo que ele mesmo produz, como se ele não tivesse nenhuma ligação com sua realidade.

    Para Marx, o que faz o homem mudar e dominar a natureza através do trabalho?

    Conforme o pensamento de Karl Marx, em busca de atender suas necessidades para sobreviver, o homem modifica e domina a natureza através do trabalho. Esta é uma condição fundamental para nossa existência. Ele vai retirar da natureza seu sustento, porém, neste processo, ele acaba dominando a si próprio. Essa interação da natureza com o homem dá início à nossa vida material. O homem estabelece relações sociais e organiza-se com a intenção de melhor suprir suas necessidades e explorar seu meio natural. Assim as bases de uma sociedade estão diretamente associadas à sua relação com a natureza e consigo mesmo.

    A relação do homem com a natureza ocorre através da mistura entre as forças de trabalho humano, os instrumentos (tecnologia) e os recursos naturais (matéria-prima) que auxiliam no trabalho (meios de produção). Mas a produção não é um fenômeno isolado, ela é um fenômeno coletivo. Temos a relação entre os homens: as pessoas se organizam entre si para produzir as riquezas e os bens; aquilo que é mais vital dentro de uma sociedade é mais valorizado, portanto, quem o produz tem uma posição privilegiada dentro deste meio social. O acesso aos produtos e aos meios de produzi-los é diferenciado e isso faz com que existam classes sociais.

    Mas afinal, o que são classes sociais?

    Unidade 2

    Revolução Francesa

    O sistema capitalista é um modelo econômico classista dividido entre os donos dos meios de produção e trabalhadores. Ambos dependem um do outro, porém, a dependência é muito desequilibrada e a relação é de exploração. Para o sistema, é necessário produzir bens visando a maior margem de lucro possível. Essa margem de lucro pode aumentar se o patrão conseguir extrair maior produtividade de seus funcionários, então as estratégias para se manter competitivo no mercado e lucrando alto incluem maior exploração da classe operária.

    Quando a classe comerciante burguesa ascendeu na França após a Revolução Francesa, derrubando a nobreza e o clero sob a bandeira com o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, o que Marx percebeu foi que nenhum dos ideais perseguidos na época da revolução foi cumprido. Impulsionado pela Revolução Industrial, a burguesia (classe dominante), dona das máquinas, fábricas, ferramentas e terras (meios de produção) recrutou o proletariado (classe subordinada) para trabalhar em troca de um salário. Sem opção, o proletariado tinha apenas a sua força de trabalho para vender ao patrão. Porém, isso não acontece de forma pacífica. Patrão e trabalhadores estão em permanente conflito.

    O ponto de vista de Marx está centrado na concepção materialista da história, ou seja, a principal fonte das mudanças na sociedade é impulsionada por influência dessa estrutura econômica da qual os homens fabricam sua realidade material. É pelo conflito entre as classes que funciona o “motor da história”.

    Para você entender melhor, é preciso acrescentar que, além desta estrutura com base econômica, os homens também produzem uma superestrutura que tem bases não materiais: as ideologias, os códigos morais, a estética, os sistemas de leis, etc. Logo, a variedade das formas políticas, ideológicas e jurídicas tem como ligação o modo como os homens se organizam no processo produtivo. Essa relação entre superestrutura e infraestrutura é que forma a sociedade.

    Mas você deve estar se perguntando: o que o materialismo tem a ver com a área da saúde?

    O materialismo histórico tem muito a acrescentar à área da saúde, pois ele é a reflexão crítica acerca da existência de doenças de classes, coisa que o funcionalismo preferia deixar de lado, visto que isso revelaria dissonâncias dentro da sociedade.

    Existem situações médicas em que o que é interpretado como doença entre os ricos, entre os pobres é uma condição normal, ou seja, a doença na favela não é a mesma doença na alta sociedade. Isso ocorre porque, na prática, pelo fato das bases estruturais de nosso sistema econômico serem desiguais, as relações das pessoas com a questão saúde/doença será, igualmente, desigual.

    Também são diferentes as formas de acesso que os indivíduos de uma mesma sociedade têm aos recursos que estes mesmos produzem. Os hospitais privados são sempre melhor estruturados do que os hospitais públicos, precarizando ainda mais a vida do proletário, visto que apenas os mais abastados têm recursos para pagar uma intervenção médica particular.

    O capitalismo e sua busca desenfreada por lucro acabam transformando as pessoas naquilo que elas produzem, em objetos e mercadoria, desumanizando os indivíduos e privando-lhes do acesso aos bens básicos para a sua existência.

    Unidade 2

    Na perspectiva pessimista de Marx acerca do capitalismo, ele previa que no futuro os homens se confundiriam de tal forma com aquilo que produzem (mercadoria) que acabariam sendo engolidos pelo próprio sistema criado por eles (dialética). A crítica de Marx é bastante atual se observarmos que nosso sistema econômico não poupa nem nossa integridade física.

    A possibilidade de se vender um órgão em troca de dinheiro é um dos exemplos da previsão de Marx acerca da modernidade. Em busca de manter a própria sobrevivência, os indivíduos se veriam pressionados a vender partes do seu corpo em troca de capital para pagar suas dívidas financeiras.

    A própria lógica do capital contamina a indústria farmacêutica e não são poucos os casos de remédios que, ao invés de curar, causam dependência no paciente, fazendo com que ele acabe se tornando um consumidor compulsivo. Os médicos acabam envolvidos nesse processo porque a indústria farmacêutica paga altos valores para que estes profissionais indiquem o produto que vicie mais e faça o menor efeito.

    Podemos citar o exemplo da ritalina, uma substância que tem o mesmo efeito da cocaína, agindo como um estimulante no sistema nervoso central. No senso comum considera-se que uma característica normal das crianças é a inquietação; elas estão numa fase de descobertas e os estímulos externos acabam por tirar a sua atenção frequentemente. Mas um fato que chama a atenção de médicos e especialistas é que nos últimos quinze anos aumentou exponencialmente o número de crianças diagnosticadas com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e a prescrição da ritalina tem crescido também. Chamada de “pílula mágica” por transformar crianças agitadas em verdadeiros anjos, essa medicalização incita discussões entre sociólogos, psicólogos e médicos.

    Com base nestes fatos, a preocupação surge quando profissionais da área de saúde transformam em doença aquilo que é uma fase normal da vida. Outra crítica comum ao uso da ritalina é que os sintomas do TDAH estão diretamente ligados às causas sociais como o estresse da vida urbana, o efeito devastador da tecnologia da informação, a falta de exercícios, a má alimentação e, ao invés de combaterem estes sintomas, os profissionais da área da saúde preferem medicar a criança. É a intromissão do comércio na saúde.

    Unidade 2

    Revolução Russa de 1917

    Em 1917, na Rússia, uma Revolução colocou em prática as ideias de Marx sobre uma possível intervenção do homem racional sobre a sociedade capitalista injusta e decidiu coletivizar todos os bens produzidos nesta sociedade numa tentativa de acabar com as desigualdades. Logo, todas as escolas, hospitais e indústrias foram estatizados; neste momento da história começou-se a se discutir no mundo todo um sistema econômico em que houvesse saúde gratuita e de qualidade para todos.

    A partir daí, nasceu a assistência à saúde coletiva, planejada com o objetivo de atender uma dada coletividade, levando em conta seus problemas de classe e buscando desenvolver a consciência crítica entre esses grupos acerca de sua realidade social, fazendo-os refletir como ela está diretamente ligada à sua saúde.

    Esse é um dos conceitos de Karl Marx sobre o surgimento de uma sociedade socialista. Marx não viveu para ver o nascimento de uma sociedade do jeito que ele tinha planejado, mas a sua ideia se expandiu pelo mundo e alcançou vários países em diversos continentes. Temos a China no continente asiático, Cuba na América Latina, Angola na África, apenas para citar alguns exemplos de países que adotaram o sistema socialista.

    Logo após a Segunda Guerra Mundial (1945), com a divisão do mundo em dois sistemas econômicos distintos (capitalismo e socialismo) e a expansão do bloco socialista, os países europeus que continuaram capitalistas adotaram um modelo econômico que se chama Estado do bem-estar social. Este modelo econômico, político e social afirma que o Estado é responsável por assegurar os serviços públicos de qualidade e segurança à população. Uma ideia socialista, porém sem abandonar o sistema econômico capitalista.

    Este modelo econômico - Estado do bem-estar social - faz uma contraposição ao capitalismo liberal (que acreditava que a economia por si só poderia regular a vida social) e adota algumas medidas socialistas, como a intervenção forte do Estado na sociedade. É neste momento que nasce o NHS (National Health Service), na Inglaterra, em 1948. Esta é a sigla que representa o sistema de saúde britânico no qual o SUS (Sistema Único de Saúde) brasileiro se inspirou.

    A criação do SUS data o ano de 1988, junto com a Constituição Brasileira que coloca nas mãos do Estado brasileiro a responsabilidade de oferecer uma saúde gratuita e de qualidade ao povo. Tendo como diretrizes básicas a descentralização, atenção integral à saúde, acesso igualitário e universal, gratuidade plena dos serviços prestados e participação da comunidade, o SUS atende cerca de 90% da população brasileira (dados de 2003) e é a medicina social que tem maior número de procedimentos financiados pelo Poder Público no mundo.

    Entretanto, são muitas as críticas acerca do não cumprimento das diretrizes básicas e de outras irregularidades como desvio de verbas, burocracia excessiva, falta de médicos e/ou de estrutura para funcionar.

    Unidade 2

    Apesar de todos os questionamentos em relação ao Sistema Único de Saúde (SUS), é importante observarmos que, em parte, ele está ligado ao espírito do socialismo proposto por Karl Marx. Para este, o Estado se coloca como responsável por acabar com as desigualdades sociais e gerar condições para que o povo se liberte de sua condição de subjugado no modelo econômico capitalista.

    Na teoria, a sociedade socialista pensada por Marx tinha uma lógica tão perfeita que muitos acreditaram no sonho de uma sociedade igualitária e lutaram contra o sistema capitalista como se este fosse a representação do próprio mal na face da terra. O ideal de igualdade e fraternidade entre os homens se transformou numa ideia a ser perseguida a todo custo e a partir daí começou a haver retrocesso. Todos aqueles que discordavam das ideias socialistas eram vistos como traidores e os países que adotaram o modelo socialista acabaram por se transformar em ditaduras perversas capazes de verdadeiros genocídios em nome da utopia socialista. Apesar dos regimes socialistas se colocarem como verdadeiros paraísos, muitos queriam fugir deles para habitarem países de economia capitalista.

    O caso mais emblemático desse período foi o do Muro de Berlim. Depois da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida entre quatro países (França, Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética), dos quais três adotavam o modelo capitalista, apenas a União Soviética ficava com o modelo socialista.

    Muro de Berlim (1963)

    Como solução para as constantes fugas dos moradores da parte socialista para a capitalista, foi construído um muro que separava o país em dois: um entre Estados Unidos, França e Inglaterra, partidários do capitalismo, e outro lado para a União Soviética (U.R.S.S.). Em 1990, o bloco soviético desmorona numa crise econômica e social sem precedentes e o sonho de um mundo socialista fica mais distante. Como o sistema capitalista não encontra mais concorrência, ele se expande pelo planeta, iniciando uma nova era econômica e política orientada pelo neoliberalismo e pela globalização.

    Unidade 2

    Como você pode ver no início dessa unidade de estudo, o liberalismo é uma corrente filosófica e política que defende ampla liberdade individual e o livre mercado, sem a interferência do Estado, pois, segundo os liberais, existiria no comércio uma série de leis de autorregulação (lei da oferta e da procura), que faria com que a sociedade se equilibrasse sobre essas normas.

    O neoliberalismo é uma releitura dos preceitos liberais que ressurge com a queda dos modelos que faziam oposição a ele (bem-estar social e o socialismo). Por este motivo, em nome do livre comércio, é que a partir da queda do bloco socialista, inicia-se um longo período de privatizações no mundo todo. Vários hospitais públicos foram privatizados ou sucateados, houve uma precarização dos vínculos de trabalho no setor público, e os planos médicos se multiplicaram, além de boa parte dos serviços terem sido terceirizados, como os serviços assistenciais e terapêuticos.

    O mesmo aconteceu no Brasil, principalmente no período em que Fernando Henrique Cardoso foi presidente (1994-2002), modernizando nossa infraestrutura, porém, aumentando o fosso da desigualdade social entre pobres e ricos.

    Com a expansão e aceleração do capitalismo, alguns pensadores socialistas estão preocupados com as consequências desse fenômeno e preveem um modelo econômico capitalista cada vez mais selvagem. Um exemplo é o caso do esloveno Slavoj Zizek que observa a economia chinesa e como eles estão se preparando para ser a nova potência econômica mundial.

    Eles estão fazendo um banco de genes e selecionando aqueles mais inteligentes para descobrir que mecanismos geram a inteligência. Com a descoberta, a próxima geração de chineses terá um Q.I. altíssimo em relação às demais populações do mundo, ou seja, a acumulação de capital não vai gerar apenas uma desigualdade entre classes, mas também uma desigualdade entre raças porque com as novas tecnologias da saúde, futuramente a manipulação genética poderá criar uma nova raça humana.

    Já no começo do século XXI foi possível fazer uma série de mudanças estéticas no próprio corpo, mudar formato do nariz, implantar silicone, colocar botox, fazer lipoaspiração e, em casos mais delicados, já se pode até fazer transplante da face inteira. A revolução tecnológica tem apontado para um admirável mundo novo, porém, fica restrita àqueles mais prestigiados financeiramente. Essa é a lógica do capital.

    A crítica feita ao modelo materialista-histórico é que, apesar de ser um modelo interessante para se pensar as diferenças sociais, ele é reducionista porque acaba dando um peso maior às questões econômicas de uma sociedade. Foi pensando nessa crítica que outro alemão chamado Max Weber elaborou suas teorias acerca do modus operandi do mundo social. Mas quem foi Max Weber? É o que veremos na próxima unidade de estudo.

    Unidade 2

    A racionalidade

    A racionalidade guia a ação do homem e Weber foi o primeiro sociólogo a focar essa questão em seus estudos. Segundo ele, o indivíduo age racionalmente sempre que deseja atingir um objetivo. Assim, ele se guia através da razão para traçar seus planos e estratégias que possam ajudá-lo a alcançar os objetivos propostos.

    Esse tipo de ação passou a ser utilizado na modernidade quando o indivíduo se encontrava diante de melhores expectativas de vida e assim começava a fazer planos. O objetivo já não era mais lutar pela sobrevivência, a modernidade proporcionou ao cidadão desejos por dias melhores, e para tal, ele precisava traçar seus objetivos, trabalhar, estudar para alcançar o que almejava, sempre orientado por seus princípios e valores.

    Todo esse processo de mudança também influenciou a visão política do cidadão. Agindo sob sua racionalidade, o cidadão começa a perceber que a burocracia se apresenta como forma mais viável e justa para o sistema político de um país. Talvez seja por isso que as sociedades modernas optaram pela burocracia.

    No entanto, cada ação desempenhada pelo homem influencia de forma direta o modo de viver em sociedade. Por tal motivo é necessário estudar os processos sócio-históricos que formaram nossa sociedade; não importa sua área de atuação, antes de exercer qualquer ofício, você é, antes de tudo, cidadão, e como tal, é responsável pela vida que deseja ter, pela sociedade na qual está inserido e pelo sistema político adotado e executado no seu país.

    Histórico de Max Weber e a racionalidade

    Max Weber

    O alemão Maximilian Karl Emil Weber, nascido em 1864, tem uma concepção distinta de seus antecessores sobre as sociedades. Ele fala muito no elemento da modernidade: a racionalidade. Muito influenciado por outro alemão, Friedrich Nietzsche, Max Weber observa que o pensamento racional, que veio com toda a força na Era Moderna, estava causando um desencantamento do mundo. Polêmico, Nietzsche proclamou em sua obra Gaia Ciência, no ano de 1882, a famosa frase: “Deus está morto!”. Não fez isso apenas para chocar a sociedade de sua época, mas para deixar claro que os novos tempos que vieram com a modernidade fizeram o homem perder a fé em Deus. Tal descrença acabou matando este ser superior para dar espaço à chegada de um novo tempo chamado antropocentrismo, ou seja, o homem no centro de tudo.

    Unidade 2

    Racionalidade

    Assim como Nietzsche, Weber observava que as pessoas, quando adoeciam, não frequentavam a igreja, elas frequentavam, cada vez mais, os consultórios médicos. As pessoas passaram a enxergar cada vez menos a interferência de seres espirituais e mágicos no cotidiano para adotar uma interpretação secularizada e racionalizada do mundo. Um mundo regido por leis matemáticas, físicas e naturais. Até mesmo as religiões vão buscar a modernização de suas estruturas para acompanhar o processo histórico que se desenvolve no século XIX.

    No que as sociedades se tornam complexas e a racionalidade vai ganhando força, o sistema econômico capitalista também vai se fortificando com esses acontecimentos. As regras do sistema capitalista estão diretamente ligadas a uma organização sistematizada e hierarquizada da sociedade. Desde a ascensão do capitalismo, a burocracia tem se tornado a estrutura organizativa que mantém a ordem no complexo mundo atual. Qualquer instituição moderna é amparada diretamente em uma estrutura burocrática: escolas, empresas, hospitais, bancos, entre outros. Outras características da burocracia são a impessoalidade e a meritocracia.

    Para você entender melhor o conceito de burocracia na visão weberiana, precisa conhecer sua sociologia. Diferente de seus antecessores (Durkheim e Marx), que colocam a sociedade acima dos indivíduos, Max Weber traz um novo estudo sobre a sociedade que pensa de forma oposta: ele acredita que uma sociedade é feita de indivíduos e, se quisermos estudá-la, devemos compreender o que move estes indivíduos, ou seja, sua ação.

    Tipos de ação na concepção weberiana

    Agora você compreenderá a visão de Weber: ele explicita que a ação possível de ser estudada pela sociologia é a ação racional porque a irracionalidade é determinada por uma menor nitidez em sua finalidade. Weber classifica quatro tipos de ação: a Relação Racional com Relação a Fins; a Ação Racional com Relação a Valores; a Ação Social Afetiva e a Ação Social Tradicional.

    A Ação Racional com Relação a Fins acontece quando o indivíduo tem objetivo a ser atingido; ele é guiado pela sua racionalidade para traçar planos e estratégias e, de forma organizada, conseguir seu propósito. Para Weber, este é o tipo de ação mais utilizada na modernidade e com tendência a se destacar em relação a outras ações. Você age de forma racional com relação a fins quando quer conseguir um emprego. Neste caso, é importante você preparar um currículo que tenha afinidade com a área desejada, fazer cursos que apresentem relação com o emprego, ter uma formação na mesma área, enfim, uma organização mínima para chegar ao objetivo.

    Na Ação Racional com Relação a Valores, o que vai guiar o agente são seus princípios e suas convicções. Se você é vegetariano, recusará um churrasco com os amigos porque seus valores o impedem de comer carne. Se você é Testemunha de Jeová, uma religião cristã que iniciou no século XIX, possivelmente se recusará a fazer transfusão de sangue, mesmo que isso ponha sua vida em risco, porque suas convicções religiosas não permitem esta prática.

    Unidade 2

    Todavia, nem somente de atitudes racionalizadas são feitas as ações dos indivíduos. É o caso da Ação Social Afetiva e da Ação Social Tradicional. O sujeito que age movido pelos afetos utiliza sentimentos como raiva, vingança, orgulho, inveja, paixão, entusiasmo, entre outros. No caso da ação tradicional, quando somos levados por estímulos habituais a repetir certas ações sem nos questionarmos sobre o real propósito disso, estamos sendo guiados por uma tradição. Um exemplo muito comum é quando sofremos de alguma enfermidade e, mesmo sem refletir sobre a real eficácia, tomamos aquele velho remédio caseiro, que já está na família há muitas gerações e vem sendo passado adiante.

    Burocracia

    Para Max Weber, a modernidade dá espaço às ações racionais. É por isso que a burocracia é tão valorizada entre as instituições modernas. Já as ações menos racionalizadas tendem a ser excluídas. Uma das críticas que Weber faz sobre a modernidade é a exclusão da dimensão afetiva entre as relações modernas. Os indivíduos estão se tornando cada vez mais frios e insensíveis, excluindo assim uma gama de experiências sensíveis vitais para a existência. Quanto mais racional e impessoal for relação entre indivíduos, melhor para o sistema burocrático.

    No Brasil, a burocracia funciona de uma forma diferente da pensada por Max Weber. Por causa da sua colonização, a miscigenação de vários povos da modernidade teve um resultado desigual. Um sociólogo brasileiro chamado Sérgio Buarque de Holanda utilizou alguns conceitos de Max Weber e chegou à conclusão de que o Brasil é um país onde as relações pessoais prevalecem porque o povo é cordial. A cordialidade é uma palavra que tem raiz no latim e significa “agir com o coração”.

    O fato de indivíduos quererem levar vantagem em tudo surge de nossa afetividade e tradição de resolver conflitos corrompendo as regras, sem entrar em confronto direto com a real causa do problema.

    Se você está numa fila enorme de um hospital público, esperando atendimento há horas, a atitude de exigir explicações dos órgãos competentes acerca da demora do atendimento seria coerente, porém, prega que devemos procurar algum parente, ou amigo, entre os gestores do hospital para que este possa colocar você em algum lugar mais à frente na fila, ou pagar uma propina por um atendimento mais rápido, algo que é proibido nos serviços públicos.

    Esse tipo de ação atinge todos os setores e está presente em todas as instituições, provocando um mau funcionamento do aparelho burocrático devido a sua impessoalidade. É por isso que, segundo as concepções weberianas, os hospitais brasileiros apresentam uma disfunção tão grande. O sistema, no papel, funciona perfeitamente, todavia, quando entra em confronto com a prática, não funciona devido a realidade.

    Você pode ver que o pensamento weberiano tem uma implicação maior dentro da política. Ele é importante para se pensar como a estrutura política dentro de um hospital funciona, partindo da perspectiva dos indivíduos que a constroem, o que move estas pessoas e quais interesses se transformam em ações.

    Unidade 2

    A biopolítica

    O filósofo Michel Foucault buscava desfazer a dicotomia indivíduo/sociedade, a qual foi alvo de controvérsias entre sociólogos a partir da segunda metade do século XX. Este mesmo teórico idealizou o termo biopoder, que se trata de um exercício de poder voltado para a normalização do indivíduo e seu corpo através das instituições que ele atravessa durante sua vida (escola, fábrica, prisão, hospital, etc.). Neste conceito, o corpo é visto como uma máquina que precisa ser moldada de acordo com as intenções do sistema de poder. Biopoder seria, portanto, manter o corpo sob o poder do Estado.

    Aliado à ideia do biopoder, acha-se o termo “biopolítica”, que se trata da proteção dada pelas instituições àqueles marginalizados como pobres, negros, loucos, etc. Biopolítica, seria, portanto, a resistência frente às tentativas do biopoder.

    E quais seriam as contribuições destes termos para a área da saúde?

    A expansão da tecnologia no século XX foi terreno fértil para o surgimento da era da informação. Porém, com esse fácil acesso, os governos passaram a ter controle sobre as informações dos cidadãos. No campo da saúde, por exemplo, algumas instituições passaram a ser obrigadas a divulgar informações sobre certas doenças, o que beneficia as pessoas no sentido de obterem acesso a elas.

    Na concepção foucaultiana, isso tudo contribui para os avanços da biopolítica, uma vez que certas instituições passam a ficar sob o controle de superiores.

    Histórico de Michel Foucault

    Michel Foucault

    Michel Foucault (1926-1984) foi um filósofo de grande influência que buscou romper os paradigmas desgastados na sociologia da época. A partir da segunda metade do século XX, os modelos de pensar a sociedade tinham chegado ao limite. Em certos momentos os sociólogos abordavam seus estudos a partir do indivíduo, em outros, a partir da sociedade, sempre dando importância maior ou menor a algum desses dois polos. Foucault parte de uma análise que buscava romper com esta dicotomia.

    Agora você conhecerá um pouco sobre Paul-Michel Foucault.

    Foi batizado com o mesmo nome de seu pai, que era um famoso cirurgião; interessou-se pelos impactos da medicina moderna chamando atenção para a regulação e educação do corpo pelos Estados modernos.

    Unidade 2

    Muito da vida de Foucault está presente em suas obras. Jovem rebelde e incompreendido tenta se suicidar em 1948 e o pai o interna numa instituição psiquiátrica; este momento acaba por inspirá-lo a estudar a loucura. Reconhecidamente, o fato de Foucault ter uma orientação homossexual o levou a estudar a sexualidade. Ele foi uma das primeiras vítimas famosas a contrair a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida-AIDS.

    O período que Foucault aborda com maior frequência é o momento em que, com a ascensão dos Estados-Nação e a industrialização, a população humana começou a ser vista como um recurso a ser monitorado e regulado porque a produtividade econômica e o crescimento da nação passaram a estar diretamente ligados à saúde do país. Foi neste momento da história que começaram os primeiros estudos demográficos e as primeiras interferências do Estado com o intuito de controlar o comportamento dos indivíduos. A partir daí nasce a saúde pública, uma tentativa de eliminar as doenças do corpo social. As técnicas desenvolvidas por meio de vigilância foram se aperfeiçoando a fim de controlar as multiplicidades comportamentais dos indivíduos.

    Isso explica a heteronormatividade em nossa sociedade moderna. No século XIX, o sexo era visto como uma forma da sociedade reproduzir e se expandir. Todo sexo que não visasse à reprodução era condenado, reprimido e controlado. Qualquer orientação sexual que não fosse a heterossexual era vista como aberração ou perversão sexual porque o sistema econômico precisava que as pessoas reproduzissem e mantivessem os níveis de reprodução.

    É importante lembrar que até 1990 a homossexualidade era considerada doença mental e tratada em manicômios como um distúrbio, tratamento este que incluía eletrochoques, mutilações, entre outras atrocidades.

    Neste período foi criada uma série de instituições modernas para monitorar, controlar e reformar pessoas. Entre estas instituições estão às prisões, os asilos, as escolas e hospitais. Na visão de Foucault, estas instituições modernas produzem técnicas e métodos para transformar as pessoas em seres dóceis e obedientes. Todo esse controle que o Estado exerce sobre nós, desde o nascimento, passando por nossas atividades sexuais, até a nossa morte, tudo isso o filósofo francês entendeu que somente pode ser percebido pela biopolítica. É o estudo da relação entre seres humanos e sua dimensão política.

    História da loucura

    Dentro da normalidade, a sociedade moderna passa por uma relação com o corpo moderno e sua socialização para o trabalho fabril. Em outras obras como a História da loucura, Foucault mostra como a loucura, até o século XIX, não era definida como doença; em algumas sociedades era até percebida como algo divino, todavia, à medida que o projeto da modernidade vai tomando forma, os manicômios começam a funcionar como espaço para tratar aqueles que se encontram acometidos pela falta de razão. A passagem da loucura para a doença mental é a prova de como o poder age na modernidade.

    Unidade 2

    Dentro da mesma lógica da domesticação dos corpos também surgem as penitenciárias. As leis são feitas por aqueles que detêm o poder, a classe superior. Todos os que se revoltam por sua condição de submissão precisam ser domesticados e com isso nascem as prisões.

    Em sua obra Vigiar e Punir- História da violência nas prisões (2007), Foucault se utiliza de fontes históricas para mostrar como surgiram as prisões e porque o sistema carcerário é composto por pessoas excluídas deste processo de formação do Estado. No caso do Brasil, estatisticamente, as prisões são formadas por pessoas de baixa renda porque essas foram as marginalizadas na história da construção da nação brasileira. São raríssimos os casos de pessoas da classe alta ocupando uma cela no sistema penitenciário.

    A biopolítica e o biopoder

    Na Era Moderna, os Estados-Nação tem uma forte influência na vida dos seus cidadãos, visto que as instituições voltadas para a saúde são geridas, em sua maioria, pelo Estado. A política passou a influenciar permanentemente a vida das pessoas porque é através dela que os Estados-Nação se organizam, criando leis, normas e vigiando os seus cidadãos. Esta vigilância também opera em nossos corpos e vem através de disciplina para que todos os cidadãos hajam de acordo com as leis e o Estado atinja suas metas e seus objetivos econômicos, políticos e culturais.

    O poder é uma prática social em que há aqueles detentores dele nomeados “dominantes do poder” e aqueles que estão submetidos a ele nomeados “dominados”; portanto, é como algo que se exerce, que funciona como rede e deve ser compreendido como uma estratégia. O que devemos comer o que beber com quem devemos andar, que tipo de orientação sexual nós temos, tudo isso é de suma importância para o controle do Estado.

    O biopoder age na medida em que o conceito de disciplina se faz presente. As políticas (liberais, socialistas, libertárias, etc.) têm uma forma de entender o corpo e regulá-lo de acordo com seus interesses. Nas sociedades capitalistas de economia liberal o corpo deve estar bem adaptado ao trabalho, à questão do lucro, à competição e ao individualismo. Pessoas com tendência a serem solidárias são mal vistas na sociedade, sendo que em grupos sociais nos quais o socialismo está presente esses indivíduos são valorizados. Nas sociedades socialistas aquele que busca o individualismo é duramente reprimido e visto como alguém fora dos padrões.

    As escolas também são instituições onde o biopoder está presente. As normas disciplinares são aplicadas na busca de talhar um indivíduo que sairá da escola pronto para entrar no mercado de trabalho, ocupar as fábricas e manter o sistema funcionando. Não devemos esquecer que até metade do século XX o uso da palmatória era algo corriqueiro nas instituições de ensino do Brasil como prática pedagógica para disciplinar os estudantes e induzi-los a um comportamento exemplar perante a sociedade.

    Unidade 2

    Nos hospitais não é diferente. Mudanças estruturais como a individualização dos leitos permitiu uma autonomia médica para cada paciente além de uma medicalização individualizada. Aconteceram mudanças também na forma de atendimento: implantação do sistema de registro permanente em que os indivíduos passaram a ser identificados e controlados a cada saída e entrada que davam no hospital, prontuários com registro dos sintomas de quando entravam e em que estado de saúde saíam do hospital. Tudo isso possibilitou uma eficiência administrativa, produtividade e responsabilidade de todo o pessoal incluído no processo.

    Os hospitais da Era Medieval eram coordenados por padres, enquanto hoje são médicos que executam esse serviço. O sistema hierárquico implantado dentro do hospital também ajuda a controlar os corpos dentro dessa instituição, não apenas de pacientes, mas de enfermeiros, funcionários e visitantes.

    Qual o limite de poder que o Estado tem sobre nossos corpos?

    Todas essas questões levantadas pela biopolítica nos levam a algumas situações polêmicas que envolvem o Estado e o controle dos corpos. É importante lembrar que existem 74 países que praticam a pena de morte, ou seja, pena capital.

    Essa condenação significa atribuir ao Estado o poder total de vida ou de morte sobre um indivíduo. Isso é justo? O enfermo tem o direito a uma abreviação de sua vida ou apenas o Estado pode fazer isso? E o aborto?

    Para Foucault, todos esses questionamentos perpassam pelo tema da biopolítica. Como o Estado está monitorando e controlando cada vez mais os corpos, é de total interesse das instituições fortalecer a vigilância sobre seus cidadãos; por este motivo, vez por outra as questões acima são levantadas. Quando acontece um crime hediondo, alguns setores da sociedade se colocam a favor da pena de morte. Segundo Foucault, a defesa de tal ideia implica em executar de forma sistematizada os desviantes do processo de formação do Estado, ou seja, no caso do Brasil, os pobres, os negros, os loucos, os desajustados.

    Entre aqueles que deram continuidade ao trabalho deste filósofo francês existe uma preocupação ainda maior devido ao processo de continuidade e aceleração da modernidade. Essa vigilância e disciplinarização do corpo tende a aumentar e se expandir transgredindo as paredes das instituições modernas.

    Com a difusão da tecnologia na segunda metade do século XX e o surgimento da Internet, a era da informação teve início. A Internet se transforma no veículo de comunicação que mais cresce nesse começo do século XXI. Entretanto, com o barateamento da tecnologia da informação, os Estados estão monitorando grande rede mundial de computadores, adquirindo tecnologia de espionagem para fortalecer sua vigilância sobre os cidadãos.

    No final de 2012, o governo brasileiro obrigou laboratórios a repassar resultados de exames de HIV. É a primeira vez que a AIDS entra numa lista de 40 doenças com notificação obrigatória. Na visão de Foucault, esses são os avanços da biopolítica em esferas que vão além das instituições criadas no começo da Era Moderna.

    O setor jurídico e a psicologia são os que mais se apropriam dos estudos de Foucault, mas suas ideias vão além destas áreas, como na educação e nos mais diversos campos da saúde.

    Correntes Sociológicas-August Comte

    Correntes Sociológicas-Émile Durkheim

    Correntes Sociológicas-Max Weber

    Dimensão social do processo saúde-doença

    3

    Conhecimentos

  • Compreender o processo saúde-doença a partir de sua dimensão social, conceito e a relação entre saúde e seus determinantes sociais.
  • Habilidades

  • Identificar os determinantes sociais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população.
  • Atitudes

  • Desenvolver evidências científicas, que permitam, por um lado, entender como operam os determinantes sociais na geração das iniquidades em saúde e elaborar conceitos em prol das discussões em relação à saúde e seus determinantes sociais.
  • Unidade 3

    “A Saúde e seus Determinantes Sociais”

    Sugerimos a leitura do artigo abaixo:

    BUSS, Paulo Marchiori; PELLEGRINI FILHO, Alberto. A saúde e seus determinantes sociais. Physis, v. 17, n. 1, p. 77-93, 2007.

    Através deste artigo você deverá compreender o conceito e a relação entre saúde e seus determinantes sociais, e uma breve explicação sobre a história do processo saúde-doença. É discutido os principais avanços e desafios dos fatores Determinantes Sociais de Saúde (DSS), para uma maior compreensão sobre as justificativas e elementos que podem ser caracterizados como causas de ocorrências do emaranhado de problemas relativo ao acesso à saúde e fatores de risco para a população. Para a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS), os determinantes da saúde sociais estão atrelados a fatores sociais, econômicos, culturais, étnico-raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população. As condições e a qualidade de vida da população são um dos motivos que afetam e reduzem os índices de qualidade de vida. Outro aspecto frente a estesse apresentados, podemos inferir a falta de planejamentos e estratégias no trabalho com a prevenção e não com casos emergenciais.

    Sociedade e Sistema Único de Saúde

    4

    Conhecimentos

  • Compreender o Sistema Único de Saúde a partir de seu contexto econômico, político e social.
  • Habilidades

  • Analisar criticamente o Sistema Único de Saúde a partir de seu contexto econômico, político e social.
  • Atitudes

  • Através da prática da alteridade, o aluno deve desnaturalizar os fenômenos relacionados à saúde/doença e entender como estas duas categorias são construídas socialmente.
  • Unidade 4

    Sugerimos que você leia o artigo: “Saúde no Brasil: O sistema de saúde brasileiro: história, avanços e desafios”.

    PAIM, Jairnilson et al. Saúde no Brasil 1 O sistema de saúde brasileiro: história, avanços e desafios. Veja, v. 6736, n. 11, p. 60054-8, 2012.

    A Constituição Brasileira reconheceu a saúde como um direito do cidadão e um dever do Estado, a partir de então foi criado o Sistema Único de Saúde (SUS) e com ele a organização de uma rede de benefícios que viabilizam atendimento a saúde pública no Brasil. A análise sobre os conflitos regionais, sobretudo os sociais, específicos de cada Estado brasileiro, nos permite inferir que nos últimos vinte anos o SUS passou por vários avanços em relação aos cuidados com a saúde, avanços esses visíveis, se analisados o quanto se investiu em recursos humanos, ciência e tecnologia, descentralização e maior conscientização sobre o direito a saúde. Contudo, para que sistema de saúde se torne uma ferramenta de acesso e garantia de qualidade para a saúde publica é necessários uma mobilização política, tanto das organizações públicas quanto da rede privada de atendimento a saúde.

    Ainda nesta unidade de estudo propomos a leitura do artigo “Reforma sanitária e a criação do Sistema Único de Saúde: notas sobre contextos e autores”.

    PAIVA, Carlos Henrique Assunção; TEIXEIRA, Luiz Antonio. Reforma sanitária e a criação do Sistema Único de Saúde: notas sobre contextos e autores. Hist. cienc. Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, p. 15-36, Mar. 2014.

    Contempla os principais aspectos políticos e sociais sobre a reforma sanitarista, advento do período ditatorial, iniciado na década de 60 e que perdurou até meados dos anos 80. Esta leitura deve proporcionar uma compreensão sobre as questões sociais voltadas para a saúde no período da ditadura militar, que acabou imprimindo importante efeito de desorganização na vida política nacional, sobretudo para os mais pobres. No que se relaciona aos interesses ideias relacionados ao sistema público de saúde, o Brasil vivia sob a duplicidade entre um sistema de saúde previdenciário que era dirigido somente para trabalhadores formais da área urbana, e o público, voltado para indivíduos da área rural e os setores mais desfavorecidos.

    Grande parte das discussões políticas e sociais em prol de benefícios para a saúde pública no Brasil foi iniciada a partir dos anos 70, período em que surgem novas ideias e programas para a assistência à saúde e nesse artigo, você terá oportunidade de vislumbrar a importância dessa construção, tendo em vista que esta década em específico compreende o que foi a Reforma Sanitarista Brasileira e a construção do Sistema Único de Saúde.

    Bibliografia

    BEZERRA, T.S.; NOGUEIRA JÚNIOR, F. S.; FONSECA, J.J.S. Fundamentos Básicos da Sociologia. 1ª Edição. Sobral: ERGUS, 2013.

    BIOGRAFIA de Émile Durkheim, Karl Marx, Max Weber, Karl Marx, Michael Foucault
    Disponível em: https://www.ebiografia.com/ Acesso em: 25/05/2016.

    BUSS, Paulo Marchiori; PELLEGRINI FILHO, Alberto. A saúde e seus determinantes sociais. Physis, v. 17, n. 1, p. 77-93, 2007.

    LIMA NETO, F.F.; NOGUEIRA JÚNIOR, F. S. Sociologia da Saúde. 1ª Edição. Sobral: ERGUS, 2013.

    NUNES, Everardo Duarte. A trajetória das Ciências Sociais na área da Saúde em saúde na América Latina: revisão da produção científica. Rev. Saúde Pública, v. 40, n. Esp, 2006.
    Disponível em: http://www.scielosp.org/pdf/rsp/v40nspe/30624.pdf Acesso em: 25/05/2016.

    PAIM, Jairnilson et al. Saúde no Brasil 1 O sistema de saúde brasileiro: história, avanços e desafios. Veja, v. 6736, n. 11, p. 60054-8, 2012.

    PAIVA, Carlos Henrique Assunção e TEIXEIRA, Luiz Antonio. Reforma sanitária e a criação do Sistema Único de Saúde: notas sobre contextos e autores.Hist. cienc. Saúde-Manguinhos [online]. 2014, vol.21, n.1, pp.15-36.
    Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702014000100015&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 25/05/2016.

    Créditos

    Diretor Presidente das Faculdades INTA

    • Dr. Oscar Rodrigues Júnior

    Pró-Diretor de Inovação Pedagógica

    • Prof. PHD Doutor João José Saraiva da Fonseca

    Coordenadora Pedagógica e de Avaliação

    • Profª. Sonia Henrique Pereira da Fonseca

    Professores conteudistas

    • João José Saraiva da Fonseca
    • Talita Silva Bezerra
    • Francisco Stênio Nogueira Júnior
    • Felipe Franklin de Lima Neto
    • Pollyanna Martins (Org.)

    Assessoria Pedagógica

    • Sonia Henrique Pereira da Fonseca
    • Evaneide Dourado Martins
    • Juliany Simplício Camelo
    • Maria Aúrea Galdino da Silva

    Revisora Crítica

    • Anaísa Alves de Moura

    Diagramador

    • José Edwalcyr Santos

    Diagramador Web

    • Luiz Henrique Barbosa Lima

    Analista de Tecnologia Educacional

    • Juliany Simplicio Camelo

    Produção Audiovisual

    Editor

    • Francisco Sidney Souza de Almeida

    Operador de Câmera/ Iluminador/Operador e áudio

    • José Antônio Castro Braga

    Núcleo de Tecnologia da Informação Faculdades INTA

    • Desenvolvimento de Material Didático para a EAD e Objetos de Aprendizagem para Ensino Presencial

    Avalie nosso material didático